“Chasing Ghosts” é uma expressão que nos relembra títulos de filmes, podcasts, livros e até o nome de uma banda. É também a expressão que melhor pode descrever o Tour de France que ontem terminou, vivido na pessoa do seu vencedor, Tadej Pogacar.
Quando na conferência de imprensa do segundo dia de descanso pude questionar Pogacar sobre os seus fantasmas, não imaginei que passaria os dias seguintes a matutar sobre a pergunta, a resposta e a expressão. O que significa realmente perseguir fantasmas? Até onde devemos perseguir e até onde e quando devemos deixar que isso nos atormente?
Para Pogacar nunca foi sobre enterrar os fantasmas. Nunca foi sobre dar uma resposta aos outros ou a ele próprio. E, apesar de o primeiro fantasma ter sido plantado a sete palmos e meio, talvez nem o próprio Pogacar prevesse tal desfecho. Para o ciclista esloveno de 26 anos, era apenas sobre ser melhor do que no passado.
E, de facto, assim foi. Tadej Pogacar foi melhor do que no passado. Talvez não tenha enterrado nenhum fantasma além do primeiro, o Hautacam, mas teve a solidez e a consistência necessária para que não voltasse a ser atormentado. Pensei, honestamente, que não seria assim. Imaginei um grito de revolta de um gigante histórico, um rugido de um leão não mais adormecido e com um enorme desejo de vencer. Mas não aconteceu. Foi com frieza e calculismo que se consumou a vitória mais importante, o 4° triunfo no Tour de France.
Se ainda não começaste a perceber o que tanto me fez pensar, então deixa-me explicar. Esta foi a primeira semana dos meus “curtos” 25 anos. Curtos, porque acredito que ainda tenho muita coisa para viver e aprender. Ainda assim, também já tenho os meus fantasmas. Fantasmas esses que, volta e meia, me atormentam, mas isso são histórias que deixarei para outra altura.
Não foram os fantasmas que me atormentaram nesta terceira semana. Foi o porquê de eu permitir que eles me atormentem. Foi perceber o que significa efetivamente persegui-los, foi perceber até quando e onde o devo fazer. E sim, consegui chegar a uma conclusão. Perseguir fantasmas é sobre algo inalcançável e ilusório. Sobre algo que não é verdadeiramente real. No fim do dia é sempre sobre nós, sobre onde podemos ser melhores, sobre o que nos faz melhores. Porque nem todos os fantasmas se vencem da mesma forma, nem no mesmo espaço temporal.
Talvez a grandeza de Pogacar não se resuma ao que ele consegue na bicicleta. Talvez seja também muito sobre a pessoa que evoluiu até ao que hoje é. No final destas 3 semanas, foi ele quem levantou o troféu mais desejado, mas talvez tenha sido eu quem mais aprendeu sobre fantasmas, sobre pessoas, sobre aquilo que quero para mim, e para o meu futuro.
E o que eu sei é que nesse futuro eu quero continuar a contar e partilhar histórias. Porque essa é uma das pequenas coisas mais bonitas que a vida tem para nos dar.
Foto de capa: SprintCyclingAgency
