De dia épico a jornada de cicloturismo!

Aquilo que podia ter sido um grande dia de ciclismo, acabou por ser uma jornada algo deprimente e, para boa parte do pelotão, um verdadeiro passeio ciclo-turístico e uma farsa competitiva, que em nada prestigiou a competição.

A 19ª etapa despoletou um protesto entre alguns ciclistas e a organização do Giro d’Itália. Descontentes com a extensão da etapa, e perante as condições meteorológicas adversas que, segundo os ciclistas, prejudicam os sistemas imunológicos num contexto de pandemia, parte do pelotão protestou junto da organização ontem à noite e hoje mesmo antes da etapa. Após um debate entre a Associação de Ciclistas, CPA, e organização, acabou por decidir-se encurtar a etapa para cerca de metade da extensão. Os ciclistas estavam já na estrada com a etapa prestes a começar, quando a corrida foi mesmo neutralizada e os autocarros recolheram os corredores e levaram-nos para Abbiategrasso, de onde se faria a partida da etapa com destino a Asti, num total de 124.5km, metade dos originais 258km previstos.

Esta é uma decisão polémica, que deixou o diretor de corrida do Giro d’Itália à beira de um ataque de nervos, prometendo consequências. Muitos ciclistas, como Arnaud Démare, demonstraram o seu descontentamento com o encurtar da etapa e outros disseram mesmo desconhecer o protesto. O percurso e a extensão da etapa eram já conhecidos há muito tempo e o clima também não era nenhuma surpresa, para esta altura do ano, pelo que a decisão toma se torna algo incompreensível, numa fase tão avançada de uma grande volta e sendo decidida tão em cima da hora. Segundo consta, alguns ciclistas terão entrado em conflito com a organização depois de no fim da etapa de ontem do Stelvio terem estado retidos no trânsito durante muito tempo, o que significou uma chegada tardia ao hotel.

Refira-se que uma das equipas que beneficia largamente com esta decisão, que foi impulsionada por Lotto e AG2R, é a Sunweb. O novo líder, Kelderman, após um intenso esforço na etapa de ontem, muito dele em solitário, certamente agradeceu a decisão da organização, podendo poupar o corpo a um esticão de 258 km e de muita chuva e frio, tendo um dia mais tranquilo em direção ao fim de semana decisivo da prova. Equipas como a Deceuninck, que poderiam eventualmente considerar atacar uma etapa tão longa, procurando as bordures perante um clima adverso, não terá gostado de ver o percurso alterado.

Esta é uma celeuma que promete fazer correr ainda muita tinta!

Em termos de etapa, a vitória acabou por ser decidida pela fuga da jornada, depois de o pelotão que ia sendo comandado exclusivamente pela BORA ter desistido da perseguição, a meio da etapa. Ou seja, a mega etapa de 258 km que poderia ser épica, com vento e chuva, acabou por passar a metade, e essa metade por sua vez apenas teve verdadeira competição na sua primeira metade, com o pelotão a seguir em ritmo de cicloturismo a partir do momento que a BORA decidiu parar o seu trabalho.

A vitória foi para o checo Josef Cerny, da CCC Team, que conseguiu atacar a fuga a mais de 20 km do final, seguindo em solitário e conseguindo ser mais forte que o grupo de 5 que o perseguia. Na segunda posição, ficou o belga Victor Campenaerts (NTT), com o 3º posto a ficar para Jacopo Mosca (Trek). O pelotão chegou com um atraso de 11:43, com os homens da Deceuninck, incluindo João Almeida, a liderar o grupo.

No início da tirada, os ataques sucederam-se em catadupa, com uma fuga a ficar definida ao fim de alguns km, com a seguinte constituição: Victor Campenaerts (NTT), Simon Pellaud (Androni), Josef Cerny (CCC), Iljo Keisse (Deceuninck-Quick Step), Sander Armée (Lotto-Soudal), Giovanni Carboni (Bardiani), Nathan Haas (Cofidis), Marco Mathis (Cofidis), Simon Clarke (EF), Lachlan Morton (EF), Alex Dowsett (Israel Start-Up Nation), Albert Torres (Movistar), Jacopo Mosca (Trek-Segafredo), Etienne van Empel (Vini Zabu).

A BORA não pretendia dar qualquer hipótese a este grupo de favoritos, pelo que se pôs de imediato ao trabalho, mantendo a diferença para a frente sempre muito reduzida. A fuga conseguiu chegar a 1:30 de avanço, mas depois a equipa alemã forçou o andamento, baixando essa margem, consciente que a Groupama-FDJ não estaria interessada em anular a fuga. A equipa francesa sabia que assim garantia praticamente a camisola ciclamino de Démare e, com 4 etapas ganhas, o objetivo de vencer a jornada tornava-se menos importante.

A BORA conseguiu reduzir a diferença para 35 segundos mas, com 60 km para o fim, a diferença voltava para os 1:20.

A 56 km do fim, a equipa alemã percebeu que mais ninguém ia ajudar e, com a fuga a 1:30, parou a perseguição. A fuga ia conseguir vencer esta etapa! Aquilo que podia ter sido um grande dia de ciclismo, acabou por ser um passeio ciclo-turístico e uma farsa competitiva. A imagem dos ciclistas em ritmo de passeio na frente do pelotão, depois de exigirem encurtar a etapa, sorrindo e conversando, ironicamente sem qualquer chuva, acaba por ser confrangedora e desprestigiante para a prova. Refira-se que no início da etapa, a CPA se congratulava com a decisão da organização do Giro, garantindo que a competição e o espetáculo não seriam afetados, mas este foi um dia que ninguém gostou de assistir.

A partir desse ponto, a vantagem dos fugitivos foi crescendo rapidamente. A 45 km do final já eram 6:20 e a 20 km da meta o avanço era de 10 minutos. Nessa altura, os elementos da fuga vinham a atacar-se entre si. Na frente ficou um especialista do contrarrelógio, Josef Cerny, com um grupo de 5 na perseguição (Keisse, Clarke, Armeé, Mosca, e Campenaerts), que bem se esforçava, mas não conseguia aproximar-se do líder da jornada. Com 10 km para o final, a diferença entre Cerny e os perseguidores era de 30 segundos, com o checo a revelar-se um osso muito duro de roer para os companheiros de fuga.

A 2 km do fim, os perseguidores seguiam a 20 segundos de Cerny, num aceso duelo que alegrava um pouco esta jornada tão deprimente.

Estupendo esforço de Cerny, no braço de ferro com 5 homens, a conseguir triunfar de forma extraordinária! Depois chegou Campenaerts, a 18 segundos, com o grupo de 4 a chegar 26 segundos de Cerny, liderado por Mosca.

(Photo by Stuart Franklin/Getty Images,)

O pelotão chegou passados 11:43, com a equipa da Deceuninck, incluindo João Almeida, bem na frente do grupo.

Na classificação geral, tudo na mesma, com Kelderman a liderar com 12 segundos sobre Hindley e 15 sobre Geoghegan Hart. João Almeida segue na 5ª posição, a 2:16.

Ruben Guerreiro, o Rei da Montanha, terminou a etapa na 82ª posição, integrado no pelotão, e na geral segue em 37º, a 1:55:43.

Amanhã disputa-se a 20ª e penúltima etapa, uma ligação que também sofreu alterações ao inicialmente pensado. Serão 190 km com partida em Alba e com 3 subidas a Sestriere, a última das quais uma 1ª categoria, com 6.9 km a 7.2%.

Henrique Silva venceu a etapa no Passatempo e aumenta vantagem na geral!

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