Entrevista: Soraia Silva

Soraia Silva, 21 anos, ciclista, representando atualmente a equipa da VeloPerformance, e estudante de enfermagem na Universidade de Coimbra. Assim apresentamos a nossa mais recente entrevista, a uma ciclista cheia de vitórias e com vários campeonatos nacionais nos diversos escalões pelos quais competiu. A Soraia concilia o ciclismo com a Universidade, e é sem dúvida um excelente exemplo para todos, principalmente para todos os jovens que perseguem o sonho de um dia serem ciclistas de topo! Sem mais demoras, fiquem com a entrevista.

Ciclismo MundialComo e quando deste as tuas primeiras pedaladas?

Soraia Silva – Nasci quando o meu pai era ainda ciclista profissional, o que fez com que o mundo das bicicletas fizesse sempre parte da minha vida. Quase que me arriscava a dizer que nasci a andar de bicicleta.

CM – A paixão pela bicicleta foi imediata?

SS – Obviamente que não. Sempre fui uma menina que adora barbies e todas essas típicas coisas de miúdas. Inicialmente, só queria fazer parte do mundo do meu pai. Os treinos eram sempre uma ótima desculpa para passar mais tempo com ele.

CM – Pediste aos teus pais para te inscreverem numa equipa ou foram eles que tiveram a iniciativa?

SS – Foi uma decisão conjunta. Queria entrar mais no mundo das bicicletas e o meu pai inscreveu-me no clube onde era mecânico.

CM – Tiveste algum ídolo no ciclismo quando eras pequena? Quem e porquê?

SS – O meu ídolo sempre foi e sempre será o meu pai.

CM – Começaste na Anicolor, o que guardas da tua primeira experiência de ciclismo em competição?

SS – Comecei ainda antes da Anicolor, mas no fundo o clube foi sempre o mesmo. Foi ali que cresci, foi ali que ganhei o verdadeiro gosto pela bicicleta, foi ali que construí grande parte dos meus princípios enquanto desportista e enquanto pessoa. O que mais guardo desses tempos é o verdadeiro espírito de amor à bicicleta e a todo aquele ambiente. Foi sempre como uma segunda família, que se juntava aos fins de semana para fazerem o que mais gostavam.

CM – O que levaste da Anicolor para o teu futuro enquanto ciclista e enquanto pessoa?

SS – O verdadeiro significado de amor ao ciclismo e uma família, que desde sempre me transmitiu grandes valores.

CM – Depois da Anicolor seguiu-se a Bairrada, quais foram as diferenças que encontraste de uma equipa para outra?

SS – A Bairrada oferecia-me outro acompanhamento. A Anicolor era uma equipa sub-23 e raramente tínhamos as provas no mesmo local. A Bairrada inicialmente iria ter mais raparigas o que me iria ajudar a desenvolver o meu espírito de equipa, Contudo, como a Bairrada tinha uma grande equipa de juniores masculinos e as nossas provas geralmente eram nos mesmo locais, tinha muito mais acompanhamento.

CM – Que marca te deixaram os anos a representar as cores da Bairrada?

SS –Nesse primeiro ano aprendi muito na Bairrada. Na verdade, não havia só uma equipa, havia uma GRANDE família. Era surpreendente todo a espírito de entreajuda e companheirismo naquela equipa. A vitória de uma era literalmente a vitória de todos! Além disso, era a mais nova e a única rapariga na equipa o que fazia de mim a irmã mais nova de todos.

CM – Em que vertente mais gostavas de competir? Ainda é a mesma hoje em dia?

SS – A Estrada foi sempre a minha paixão. Mais tarde, tive o privilégio de descobrir o encanto da vertente de Pista. Não consigo dizer qual destas vertentes gosto mais. São vertentes completamente diferentes, com adrenalinas diferentes, com ambientes diferentes. Porém, além de me ensinarem coisas diferentes, tenho uma paixão enorme por ambas.

Soraia como campeã nacional enquanto competia pelas cores da Bairrada. Foto: UVP-FPC

CM – Qual a vitória mais especial enquanto ciclista de formação, e porquê?

SS – Há várias vitórias especiais, como também há várias “derrotas” com sabor a vitória. Lembro-me de terminar o meu Europeu de Estrada, em Herning, no meu primeiro ano de sub-23, na 20º posição e ter uma sensação de orgulho, gratidão e felicidade inexplicável. Foi sem dúvida um dos pontos mais altos da minha vida como ciclista.

CM – Como foi para a tua família acompanhar-te desportivamente ao longo de tantos anos com provas sempre espalhadas pelo país?

SS – Nunca tive qualquer problema com isso. Havia sempre uma forma de nos ajustarmos. Além disso, para os meus pais, acompanhar-me às provas era um género de programa em família ou umas miniférias.

CM – Como era para os teus colegas na escola, ter uma amiga que era ciclista e que conquistava tantas vitórias?

SS – Infelizmente, em Portugal, o único desporto que importa é o futebol masculino. Sempre tive aqueles verdadeiros amigos que me ajudavam em tudo e me apoiavam. Contudo, não era a realidade deles, havia coisas que por mais que quisessem não conseguiam entender.

CM – Com o final dos anos de formação, também se aproximou o final da escolaridade obrigatória, e o momento de tomares uma opção importante na tua vida. O ingresso na Universidade foi algo que sempre tiveste em mente?

SS – A Universidade era algo que os meus pais queriam para mim. Não era de todo um sonho ingressar na Universidade, e na verdade nunca soube o que queria fazer para além de ser ciclista. A minha entrada na Universidade foi mais como a continuidade de um processo “natural” dos dias de hoje.

CM – Conseguiste o objetivo de entrar quer no curso, quer na faculdade que querias?

SS – Sinceramente, a única coisa que queria nessa altura era cumprir o sonho de ser ciclista profissional. Quando me inscrevi não sabia bem o que queria estudar. Queria algo que estivesse indiretamente relacionado com o desporto e com as pessoas e por isso a minha primeira opção foi Fisioterapia e só depois Enfermagem, teoricamente por causa das equivalências. Sempre preferi Coimbra pela proximidade a casa, mas acabei por me candidatar também para Aveiro.

CM – O que mudou na tua vida quando ingressaste no Ensino Superior?

SS – Antes de mais foi a minha mudança para Coimbra. Tive que aprender a ser mais independente e mais organizada para gerir o tempo de aulas, treino e estudo. Basicamente, fez me crescer, a ser mais autónoma e a depender menos da ajuda dos meus pais.

CM – Como tens conseguido conciliar os estudos e o ciclismo?

SS – No primeiro ano, como eram só aulas, embora tenha tido alguns períodos mais complicados, foi passível de conciliar com o ciclismo. Aprendi a gerir bem o meu tempo o que me permitia ter bons resultados a nível escolar e desportivo. A partir do segundo semestre, do segundo ano, com o início dos estágios em contexto hospitalar, a exigência e a pressão exercida sobre nós estudantes, a pressão a nível desportivo, a fadiga e o pouco descanso, entre muitas outras coisas, fizeram com que tivesse um período de grande rutura. E aí sim, foi bastante complicado de conciliar. Atualmente, já tenho mais capacidade para gerir todas essas emoções e, graças a grandes pessoas, já se torna mais fácil conciliar tudo isso.

CM – É difícil sobrar tempo ao final de um dia, depois de aulas, treino e estudo?

SS – Além de tempo, é difícil sobrar energia. Requer sempre o estabelecimento de prioridades e a necessidade de fazer escolhas. Sem esquecer o apoio dos meus pais e de tantas outras pessoas que estão sempre dispostas a ajudar-me.

CM – Sentes que te falta conquistar algo no ciclismo? Se sim, o quê?

SS – Por causa da Universidade o ciclismo sofreu algum impacto. Ainda me falta muito para conquistar no ciclismo. Como costumo dizer, isto ainda agora está para começar.

CM – De que mais te orgulhas quando olhas para trás em toda a tua carreira?

SS – Orgulho-me de continuar aqui! Orgulho-me de poder recordar todas as dificuldades e barreiras e ter sido mais forte que todas elas. Orgulho-me de todas essas conquistas e orgulho-me ainda mais das pessoas que ganhei com elas.

CM – Que conselho poderias dar a uma jovem ciclista que também queira seguir uma carreira desportiva em paralelo a ingressar na Universidade?

SS – Por mais que o ciclismo seja um sonho, a nossa vida é bem mais do que apenas um único sonho! Todos os dias temos coisas novas para ver, viver e aprender. Acho que tudo na vida é passageiro e que o mais importante é aproveitarmos tudo da melhor maneira. A carreira desportiva nunca vai durar para sempre, assim como a universidade. Acho que o mais importante é perceber o que faz mais sentido para cada um naquele momento e disfrutar de ambas na proporção que o fizer mais feliz.

CM – Uma frase que descreva toda a tua carreira.

SS – Fazer a diferença!

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