Ronde Van Vlaanderen, o Orgulho da Flandres!

Uma corrida de bicicletas representa muito mais do que um punhado de atletas a girarem as pedaleiras das suas máquinas, na tentativa de chegarem à meta antes dos seus rivais.

De certa forma, o ciclismo é a metáfora perfeita para a existência humana. Enquanto a maioria dos desportos são disputados em condições controladas, os ciclistas enfrentam o mundo olhos-nos-olhos a cada metro de estrada, encontrando a cada esquina um novo perigo e um novo desafio, tal como todos nós na nossa vida.

As provas velocipédicas mais exigentes obrigam os ciclistas a apelarem às suas forças, à sua capacidade de sofrimento, e ao seu próprio caráter para superarem as diversas dificuldades, o que desde cedo cativou o imaginário das populações, que se identificavam com o espírito das corridas e com esforço dos atletas, idolatrando os incríveis feitos que o comum mortal apenas podia ver de fora.

Na primeira metade do século XX, com os veículos motorizados pouco acessíveis ao grande público, a bicicleta representava mais do que um meio de transporte. Simbolizava uma extensão da vida humana, uma forma de escapar das restrições geográficas, um meio de realização pessoal, no fundo, uma maneira de encarar as agruras da vida e do ser humano se afirmar como uma entidade com individualidade e com influência no mundo.

As grandes corridas do planeta desde cedo concentraram as atenções de milhares de pessoas ao longo das estradas e de milhões que acompanhavam as provas pela rádio e pelos jornais e mais tarde pela televisão. Além do fervor desportivo e da identificação das pessoas com o esforço dos ciclistas, o ciclismo tem uma dimensão inegável na história recente da humanidade, numa ligação muito estreita com a evolução da política, da religião, e da própria sociedade.

Apesar das 3 Grandes Voltas serem as competições mais renomadas à escala global, o ciclismo de clássicas ocupa um lugar muito especial no âmago dos amantes do pedal. As grandes corridas de um dia representam eventos de enorme dimensão histórica, com peso inegável nas regiões e nos países onde se disputam.

O estatuto destas grandes competições de um dia na história do ciclismo levou a que se distinguissem as 5 maiores corridas do género, levando à criação dos 5 monumentos do ciclismo: Milão-Sanremo, Volta à Flandres, Paris-Roubaix, Liège-Bastogne-Liège, e Volta à Lombardia. Cada uma com a sua história, cada uma com a sua personalidade, cada uma com um lugar especial no livro de ouro do ciclismo.

Depois da realização da Milão-Sanremo, o monumento que se segue na temporada ciclística é a Ronde van Vlaanderen, a corrida lendária disputada na região belga da Flandres.

A história da Volta à Flandres

O domingo de Páscoa traz-nos uma das maiores benesses do calendário velocipédico internacional, a Volta à Flandres, o evento que encerra a emblemática Semana do Ciclismo Flamengo, num divino apogeu desta sagrada época do ano ciclístico.

Amanhã, uma das regiões com maior paixão e fervor pelo ciclismo abre as suas portas ao mundo, oferecendo a todos um espetacular festival de paralelepípedos, subidas inclinadas, vento, cerveja, e batatas fritas. Apesar da atual situação não permitir a festa de outros anos, o espírito da corrida e da própria região vive em cada pedra e em cada poça de lama. Enquanto o mundo aguarda por melhores dias, importa não esquecer tudo aquilo que a pandemia nos veio tirar.

A Ronde é uma prova única, fruto dos muitos km em empedrado, uma boa parte dos quais coincidente com subidas inacreditavelmente íngremes, os míticos bergs, característicos de uma zona muito específica da Flandres belga. Todos os anos, os organizadores da prova selecionam quais os bergs a serem ultrapassados, com o percurso a contorcer-se várias vezes por entre as sinuosas estradas da região.

O mítico Koppenberg, um dos pontos altos da Volta à Flandres

Realizada pela primeira vez em 1913, a Ronde apenas foi interrompida durante a Primeira Guerra Mundial, entre 1915 e 1918, tendo sido disputada durante os anos da Segunda Guerra Mundial. Ao ser corrida desde 1919, esta é a clássica que se realiza há mais tempo de forma ininterrupta no ciclismo mundial.

A Volta à Flandres foi criada por Léon van den Haute e Karel Van Wijnendaele, diretores do jornal desportivo Sportwereld, numa tentativa de promover o ciclismo e a própria região da Flandres, no Norte da Bélgica, em oposição à região francófona do Sul, a Valónia, onde pontuava a já conceituada Liège–Bastogne–Liège. De facto, a Ronde surge mesmo como um símbolo do nacionalismo flamengo. Nas palavras de Van Wijnendaele, o objetivo era criar uma corrida que cobrisse todo o território da Flandres, pois “todas as cidades tinham de contribuir para a libertação do povo flamengo”.

A 25 de Maio de 1913 realizou-se a primeira Ronde Van Vlaanderen, arrancando às 6h da manhã de Gante e cobrindo 330 km, até à meta colocada num velódromo de madeira em Mariakerke. Um total de 37 corredores alinharam à partida para este grande desafio, com a vitória a sorrir ao belga Paul Deman, que venceu um sprint a seis depois de mais de 12h de competição.

Korenmarkt, em Gante, o palco da partida da 1ª edição da Volta à Flandres em 1913 (Foto: US Library of Congress)
Paul Deman, vencedor da 1ª edição da Ronde, em 1913 (Foto: Agence Rol)

Apesar das dificuldades iniciais em atrair os principais ciclistas da altura, devido aos conflitos com os fabricantes de bicicletas franceses, a corrida começou a ganhar reputação graças à importância que tinha para o nacionalismo flamengo. Em 1914, a vitória foi para Marcel Buysse, um ícone do ciclismo local e que participou na prova contra as ordens da equipa francesa da Alcyon.

Depois da Primeira Guerra Mundial, a corrida ficou marcada durante vários anos por péssimas estradas e paisagens de destruição numa Flandres devastada pelo conflito. No entanto, a prova continuava a crescer, o que mostrava o espírito flamengo e a vontade do povo em reerguer-se. Com o aumentar de popularidade, cada vez mais pessoas concentravam-se nos locais de partida e chegada, na região de Gante. No final dos anos 20, a Ronde era já o clímax da época ciclística na Flandres, continuando a crescer nos anos 30, com multidões a acotovelarem-se ao longo de todo o percurso e longas filas de carros a seguirem a caravana. A Volta à Flandres tinha-se tornado num verdadeiro fenómeno social e um autêntico festival cultural. 

Volta à Flandres de 1929 (Foto: Le Miroir des sports)

Em 1933, o número de participantes chegava já a 164, com centenas de carros e motas a formarem uma longa procissão de fervorosos adeptos atrás dos ciclistas, muitos tentando procurar atalhos para ver a corrida por várias ocasiões, o que acabou por trazer graves problemas de segurança para atletas e para o público. Estes adeptos fanáticos chegavam mesmo a ultrapassar o próprio pelotão ou a parar no meio da estrada para sentir o mais de perto possível o grande circo da Flandres.

Estima-se que cerca de meio milhão de pessoas marcava presença ao longo das estradas para assistir às primeiras edições da Ronde. Em 1937, os organizadores viram-se obrigados a recorrer à polícia para controlar o percurso, uma medida revolucionária para a época.

O Tour de Flandres é a epítome da corrida de ciclismo enquanto espelho da luta humana pela sua existência e pela sua perseverança face às dificuldades. Na sua génese, a prova seguia a regra que ditava que cada corredor era responsável pelos seus problemas, não podendo haver ajudas de fora. Os ciclistas levavam pneus sobressalentes à volta do ombro, que enchiam caso tivessem algum furo. Uma avaria mais grave significava muitas vezes o fim da corrida e também um problema para o ciclista, que tinha de arranjar forma de chegar à meta. Apenas a partir dos anos 30 foi permitido aos atletas aceitarem casacos e pneus, mas apenas em caso de emergência.

A Ronde é a única clássica a ter sido disputada nos territórios ocupados pela Alemanha nazi, durante a Segunda Guerra Mundial, gozando da permissão e do próprio apoio à organização por parte dos alemães. Esta ligação acabaria por trazer muitos problemas aos organizadores da prova no pós-guerra.

Nesta altura, a Flandres assiste à génese de outra famosa competição. No final da Segunda Grande Guerra, em 1945, o Het Volk, um jornal flamengo rival do Sportwereld, tendencialmente de esquerda, criou a Omloop van Vlaanderen, numa tentativa de criar uma prova que rivalizasse com a Ronde, conotada com a ligação aos nazis. Os organizadores da Ronde protestaram a escolha do nome (em holandês, Ronde e Omloop são, essencialmente, sinónimos) e o Het Volk teve mesmo de mudar o nome da corrida para Omloop Het Volk, hoje conhecida como Omloop Het Nieuwsblad, a prova que abre a época de clássicas na Bélgica.

Os grandes campeões

Apesar das graves condicionantes impostas pela guerra, os anos 40 trouxeram alguns momentos épicos de desporto nas estradas flamengas, como o feito de Achiel Buysse, primeiro homem a conseguir vencer a Ronde por três ocasiões, ou de Rik Van Steenbergen, que em 1944 se tornou o mais jovem de sempre a vencer a corrida, com 19 anos de idade.

Os anos 50 trouxeram um crescimento ainda maior da prova, em função da crescente quantidade e qualidade dos atletas estrangeiros presentes. Para a história ficam as extraordinárias exibições de homens como o italiano Fiorenzo Magni, que venceu a prova por três vezes consecutivas, graças a ataques corajosos de muito longe, ou de Louison Bobet, duplo vencedor da Volta a França, que em 1955 se tornou no primeiro francês a vencer a Ronde. Diminuía a dominância dos atletas flamengos, mas crescia o prestígio além-fronteiras do “Orgulho da Flandres”.

Numa prova onde a presença e a influência do público sempre foram muito impactantes, representando um dos fatores que tornam o Tour de Flandres tão único, o aumento da popularidade da prova significava que as multidões cresciam de ano para ano, provocando graves constrangimentos e uma corrida caótica.

Em 1962, o lendário Rik Van Looy venceu a sua segunda Ronde, enquanto envergava a camisola de campeão do mundo, para gáudio das imensas hostes belgas.

Rick Van Looy, vencedor da Volta à Flandres em 1962 (Foto: Gie Devos)

No final da década de 60, seria a vez de outra lenda do ciclismo gravar o seu nome no monumento flamengo, Eddy Merckx, na altura com 23 anos. Em 1969, o Canibal atacou a 73 km do final e, apesar das más condições climatéricas e de indicações da equipa para não continuar a puxar, conseguiu manter-se isolado na frente, fechando com uma vantagem de 5:36 sobre Felice Gimondi, uma das maiores margens de sempre.

Eddy Merckx, na Volta à Flandres de 1969, que viria a ganhar (Foto: Ronde Van Vlaanderen Twitter)

Nos anos 70, com o asfaltamento de muitas estradas e colinas, a corrida tornou-se menos exigente e um lote mais alargado de ciclistas começou a disputar a vitória. O sprinter belga Eric Leman venceu nesta década, também ele, três edições da Ronde, batendo sempre Eddy Merckx ao sprint em grupos reduzidos, para descontentamento generalizado de adeptos e organizadores.

Para preservar o espírito e a dificuldade da corrida, a organização decidiu aumentar o número de ascensões, incluindo os icónicos Muur de Geraardsbergen, aka Kapelmuur, e o Koppenberg, iniciando um período de corridas épicas e um verdadeiro rejuvenescimento da prova.

O Muur de Geraardsbergen, aka Kapelmuur, icónica subida do Tour de Flandres (Getty Images)

Em 1975, Eddy Merckx venceu a sua segunda e última Ronde, desta vez enquanto campeão do mundo, através de uma memorável movimentação em conjunto com Frans Verbeeck. Os dois pedalaram na frente durante cerca de 100 km, antes do Canibal deixar o seu rival para trás nos 5 km finais.

Os anos 70 trouxeram mais um grande foco de interesse à corrida, com a polémica rivalidade entre Freddy Maertens e Roger De Vlaeminck, duas estrelas do ciclismo belga. Em 1977, os dois pedalaram isolados na frente durante 70 km, com Maertens sempre a despender todo o trabalho, o que significou uma vitória fácil para De Vlaeminck. Depois da corrida, Maertens afirmou que De Vlaeminck lhe tinha oferecido 300.000 francos para o levar de cadeirinha até à meta. A polémica continuou com Maertens a acusar doping e a ser desqualificado da corrida.

Roger De Vlaeminck, em ação no Koppenberg, na Volta à Flandres de 1977 (Foto: Mick Knapton)

Em 1985, ocorreu uma das mais memoráveis edições da prova, com a vitória de Eric Vanderaerden. O sprinter belga teve que lidar com uma roda partida durante o percurso, lutando depois para voltar à frente da corrida, antes de atacar no Kapelmuur, a 20 km do final, e não mais ser alcançado. Para a história fica a épica vitória, num dia verdadeiramente dantesco de forte tempestade, em que apenas 24 corredores em 174 terminaram a corrida, o número mais baixo da memória mais recente.

No ano seguinte, um nome bem familiar ficou inscrito na lista de honra da prova: Adri Van der Poel, pai de Mathieu. Nesta fase, vários holandeses conseguiram fazer valer o seu valor numa das maiores provas do país vizinho.

Em 1987, seria a vez de Claude Criquielion brilhar, tornando-se no primeiro belga francófono a vencer a emblemática competição flamenga, com o segundo posto a ficar para Sean Kelly. O lendário irlandês terminou em segundo por três ocasiões, com a Ronde a ficar atravessada na sua carreira como o único monumento que não venceu.

No início dos anos 90, em particular 1993, iniciou-se o domínio de outro belga, Johan Museeuw, o Leão da Flandres, que venceu a prova, também ele, por três ocasiões, tendo feito um total de oito pódios.

Em 2005, a corrida foi incluída no inaugural UCI Pro Tour, e em 2011 no seu sucessor, o World Tour, estabelecendo-se oficialmente como um dos 5 monumentos do ciclismo. Começava então o domínio da superestrela das clássicas da sua geração, o Tornado, Tom Boonen, que venceu a prova em 2005 e 2006, consolidando o seu estatuto entre os grandes especialistas do pavé.

Tom Boonen, vencedor da Volta à Flandres em 2006, a sua segunda consecutiva (Bettini Photo)

Boonen tornou-se um símbolo do ciclismo flamengo, uma entidade divina nascida na Terra Santa, um atleta de culto não só para os habitantes da Flandres mas para muitos milhões de puristas velocipédicos espalhados pelo globo.

Em 2010, Tommeke procurava a sua terceira Ronde, tendo atacado com o seu grande rival das clássicas, também ele um ícone do ciclismo, Fabian Cancellara, ainda a 45 km do final. Apesar do favoritismo de Boonen, o Spartacus suíço acelerou no Muur de Geraardsbergen, a 16 km da meta, arrancando sozinho para a sua primeira vitória.

Fabian Cancellara no Tour de Flandres de 2010, deixando Tom Boonen para trás (Getty Images)

O Tornado haveria de conseguir a sua terceira vitória em 2012, juntando-se ao lote de recordistas da prova. Nos dois anos seguintes, Cancellara voltou a ditar a sua lei, atacando em ambas as ocasiões no Oude Kwaremont, juntando-se também ele ao clube dos tricampeões.

Em 2016, a Volta à Flandres celebrou a sua 100ª edição, com a vitória a ficar para o eslovaco Peter Sagan. O Hulk de Zilina realizou uma prova de grande nível, vencendo isolado em Oudenaarde, enquanto levava ao peito o mítico arco-íris, símbolo do primeiro dos seus três títulos consecutivos de campeão mundial.

No ano seguinte, assistimos a mais um grande momento da competição flamenga, desta vez protagonizado por um francófono, Philippe Gilbert. Equipado a rigor, com a camisola de campeão belga, atacou a mais de 50 km do final, pedalando em solitário até à meta, onde parou, pegou na bicicleta, e cruzou a linha de chegada com a sua máquina bem no ar, num festejo bem condizente com a magnitude do seu feito.

Philippe Gilbert, vencedor da Volta à Flandres em 2017 (Foto : Yuzuru Sunada)

No ano passado, a prova disputou-se em outubro, fruto das contingências associadas à pandemia. Pese a excecionalidade da edição de 2020, a Ronde Van Vlaanderen não desiludiu, servindo de palco a mais uma feroz rivalidade e nova disputa para os anais da história do ciclismo. A prova foi decidida entre dois dos grandes nomes das clássicas modernas, duas personalidades antagónicas com uma história comum que cruza modalidades do ciclismo, sempre com a mesma intensidade. No final da jornada, Mathieu Van der Poel e Wout Van Aert discutiram um espetacular sprint a dois, com o holandês a vencer por curtíssima margem, num dos capítulos mais emocionantes desta titânica saga.

Mathieu Van der Poel e Wout Van Aert, na Ronde de 2020 (Foto: Pro Cycling Stats)

São seis os ciclistas que integram o lote de tricampeões desta mítica competição, algo que contribui para tornar a Ronde ainda mais única, quatro flamengos: Achiel Buysse (1940, 1941, 1943), Eric Leman (1970, 1972, 1973), Johan Museeuw (1993, 1995, 1998), e Tom Boonen (2005, 2006, 2012), o italiano Fiorenzo Magni (1949, 1950, 1951), e o suíço Fabian Cancellara (2010, 2013, 2014). Quem será o próximo a juntar o seu nome a esta prestigiante lista?

Refira-se que, apesar do carinho que esta prova possui a nível global e da internacionalização que existe desde há muitos anos, esta é uma corrida dos belgas, em particular dos flamengos. Em 104 edições, por 69 vezes a vitória foi belga, a esmagadora maioria das vezes por corredores flamengos, com 11 triunfos para a Holanda e outros tantos para a Itália, seguindo-se a Suíça com 5, a França com 3, e depois Alemanha, Dinamarca, Eslováquia, Noruega, e Reino Unido, com 1 triunfo cada.

Em relação aos portugueses, esta não é uma prova onde apresentemos grandes pergaminhos, com o melhor registo de sempre a pertencer a Nelson Oliveira, com o seu 18º posto em 2017, tendo terminado a menos de 1 minuto do vencedor dessa edição, Philippe Gilbert.

Destaque-se também que, desde 2004, realiza-se a corrida feminina do Tour de Flandres. Duas corredoras conseguiram o feito de vencer a prova por duas ocasiões, a holandesa Mirjam Melchers (2005, 2006) e a alemã Judith Arndt (2008, 2012). A campeã em título é a holandesa Chantal van den Broek-Blaak.

O percurso

A clássica maior da Flandres apresenta características muito próprias, que a distinguem de forma bem clara de qualquer outra corrida do calendário. Existem outras provas com muito pavé, muitas corridas com ascensões difíceis, mas nenhuma combina estes elementos de forma tão dura, e durante tantos km, como a Ronde Van Vlaanderen.

Depois de começar originalmente em Gante, a cidade de partida foi Bruges durante muitos, tendo passado para Antuérpia em 2017. Quanto à chegada, durante muito tempo foi em Meerbeke, sendo que a partir de 2012 passou para Oudenaarde.

O percurso sofreu diversas alterações com o passar dos anos, com a organização a procurar novas subidas e troços em empedrado, de forma a manter vivo o espírito da corrida. Quando a organização decide inovar, muitas vezes subtraindo subidas icónicas à corrida, corre o risco de estar a ofender toda uma tradição e uma região de ávidos fanáticos. A ira gerada pela eliminação da prova do Kapelmuur em 2012, obrigou os organizadores a voltar a incluir a subida em 2017, embora sem o impacto na corrida de outrora. Em 2021, tal como em 2020, a emblemática subida volta a não fazer parte do percurso da prova. De qualquer forma, é preciso reconhecer que a organização se esforça bastante para incluir novos desafios, o que contribui para manter acesa a chama da Ronde.

Para a edição de 2021, a organização selecionou 19 subidas e 17 troços de empedrado, sendo que, atualmente, as subidas-chaves da competição são o Koppenberg (600 m a 11,6%, com zonas a 22%), o Oude Kwaremont (2200 m a 4%, com pendente máxima de 11,6% e 1500 m de paralelepípedos), e o Paterberg (360 m a 12,9%, sempre em paralelepípedos, com zonas a 20,3%). Estas serão as últimas e decisivas dificuldades da árdua jornada, antes dos 40 km finais até à meta em Oudenaarde.

A subida do Koppenberg, vista da sua base (Foto: David Edgar)

Ronde Van Vlaanderen 2021

Nesta que será a 105ª edição da Ronde, nada menos se espera do que mais uma corrida plena de emoção, de drama, e de superação, que será animada por uma startlist absolutamente luxuosa, onde pontificam três nomes, os grandes favoritos a discutir este monumento.

Mathieu Van der Poel, o Godzilla de Kapellen, é o campeão em título da Ronde depois de bater em 2020, com grande dose de panache, o seu eterno rival, Van Aert. O campeão holandês tem-nos habituado a grandes momentos, como na Amstel Gold Race de 2019, mas a vitória na Ronde de 2020, da forma que ocorreu, deu-lhe um estatuto de enorme dimensão, não só no ciclismo atual, mas na própria história deste monumento. Refira-se que o ciclista da Alpecin-Fenix apresenta nesta temporada já quatro vitórias, incluindo a Strade Bianche.

Wout Van Aert, o King Kong de Herentals, quererá vingar a sua derrota no ano passado, que certamente o feriu no seu orgulho, não só por ter sido contra o seu Némesis, como por ter perdido um sprint onde parecia ter tudo para vencer. O homem da Jumbo-Visma apresenta três vitórias na época, a última bem recentemente, na Gent-Wevelgem. Refira-se também o segundo lugar na geral final do Tirreno-Adriático, um extraordinário resultado à “voltista”.

Finalmente, o campeão do mundo, o caçador de bestas sagradas, Julian “Loulou” Alaphilippe, ele que tem apenas uma vitória na presente temporada, na 2ª etapa do Tirreno-Adriático, mas que não pode ser descartado para este tipo de clássicas. Na época passada, esta foi uma prova de enorme azar para o francês da Deceuninck-Quick Step, tendo embatido de forma violenta numa mota, quando seguia com MVDP e WVA na frente da corrida. Alaphilippe tem um palmarés mais rico nas clássicas das Ardenas da Valónia, mas já fez saber que quer inscrever o seu nome no livro de ouro da prova rainha do Norte belga.

Os três grandes favoritos em 2020 voltarão a sê-lo em 2021 (Foto: Ronde Van Vlaanderen)
A queda de Julian Alaphilippe na Volta à Flandres de 2020 (Foto: Ronde Van Vlaanderen)

Amanhã, corre-se então este grande monumento, e toda a história da prova e da região da Flandres irão ser sentidas em cada paralelepípedo. Os nomes de Buysse, Van Looy, Merckx, De Vlaeminck, Museeuw, Boonen, e Cancellara irão ecoar pelas estradas flamengas. Na mente dos ciclistas, apenas um objetivo: ser o primeiro em Oudenaarde e inscrever o seu nome num dos mais sagrados livros de honra do ciclismo mundial!

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