Paris-Roubaix – O Inferno do Norte!

Entre Paris e a localidade de Roubaix, bem perto da fronteira belga, disputa-se aquela que é considerada a Rainha das Clássicas, o Monumento dos Monumentos, o sagrado Paris-Roubaix! Pese a história e a importância dos restantes Monumentos, esta é a grande clássica e aquela que os especialistas mais cobiçam! Quem não sonha ter um belo paralelepípedo exposto na sua estante de troféus?

Apesar de se tratar de uma corrida praticamente plana, tal não belisca em nada a dificuldade da prova, onde os muitos quilómetros no duro empedrado do Norte de França são suficientes para fazer tremer até os mais duros atletas. Há ainda a questão do clima, pois se fizer sol há poeira, e se chover há lama e os paralelos tornam-se escorregadios como gelo!

Depois do cancelamento em 2020, regressa amanhã a grande clássica do empedrado

A história

A primeira edição do Paris-Roubaix ocorreu em 1896, sete anos antes da primeira Volta a França, por iniciativa de dois empresários de Roubaix, Théodore Vienne e Maurice Perez. Os dois tinham a ambição de realizar um grande evento ciclístico com final no velódromo que tinham acabado de construir na pequena localidade do Norte gaulês. A distância de 280 km que dista Roubaix de Paris encaixou que nem uma luva nas pretensões dos organizadores, permitindo criar uma prova que serviria de preparação para o colossal Bordéus-Paris. Vienne e Perez contactaram o jornal Le Vélo, o único diário desportivo francês de então, com o objetivo de encontrar alguém que organizasse a partida na capital francesa.

O diretor do jornal, Paul Rousseau, enviou para o terreno Victor Breyer, editor de ciclismo, para procurar um percurso conveniente. Breyer fez parte do caminho de carro e outra parte de bicicleta, debaixo de chuva e vento frio. Quando chegou a Roubaix, imundo e exausto, esteve prestes a entrar em contacto com a redação, para lhes aconselhar vivamente a desistir da ideia de realizar uma corrida naquele tipo de condições, mas um serão bem regado com a equipa de Roubaix acabaria por lhe mudar as ideias.

O Velódromo André-Pétrieux, em Roubaix, onde atualmente são corridos os 750 metros finais da corrida

A primeira edição da corrida estava inicialmente pensada para o domingo de Páscoa, a 5 de abril de 1896, no entanto, no seguimento de objeções por parte da Igreja Católica, a prova acabaria por se realizar duas semanas mais tarde, a 19 de abril. No ano seguinte, as pretensões da organização acabaram por ser atendidas e a prova disputou-se mesmo no domingo de Páscoa.

Foto da praxe na primeira edição do Paris-Roubaix (1896)

A edição inaugural da Rainha das Clássicas encontrou ainda outros obstáculos. Era de conhecimento geral a experiência dantesca de Victor Breyer na altura do reconhecimento do percurso, o que acabou por levar cerca de metade dos corredores inscritos a não marcar presença à partida.

A corrida acabaria por ser vencida por um alemão, Josef Fischer, o único germânico a fazê-lo até à vitória de John Degenkolb em 2015. No 2º posto, ficou um dinamarquês, Charles Meyer, enquanto o 3º posto foi para o francês Maurice Garin, favorito local e que viria mais tarde a ser o primeiro vencedor do Tour de France. Garin terminou a mais de 15 minutos do vencedor e apenas quatro corredores fecharam com menos de uma hora de atraso!

Josef Fischer, primeiro vencedor do Paris-Roubaix

No ano seguinte, Garin conseguiu mesmo ser vencedor, num final emocionante a dois, onde enfrentou o neerlandês Mathieu Cordang. Os dois entraram juntos e cobertos de lama no velódromo de Roubaix, para gáudio dos muitos espetadores. Pouco depois, Cordang escorregou e caiu, perdendo terreno considerável para Garin. Determinado em reverter o seu infortúnio, o holandês tentou tudo por tudo para alcançar o francês nas 6 voltas finais ao velódromo, o equivalente a cerca de 2 km. Com o espaço a encurtar entre os dois heróis, o público vibrava em antecipação, e no final, com Cordang prestes a alcançar Garin, o gaulês acabou por ser o mais forte, cruzando a linha de meta com apenas dois metros de avanço para o seu rival. As bancadas exultavam de forma apoteótica perante tão espetacular final, com os corredores a unirem-se numa comunhão de lágrimas de alegria, de tristeza, e sobretudo de superação!

As imagens dos corredores cobertos de lama, a pedalarem nas duras estradas de empedrado, rapidamente conferiu uma aura muito especial à corrida. No entanto, a alcunha “Inferno do Norte” não adveio necessariamente da dureza do percurso. Menos de duas décadas após a edição inaugural do Paris-Roubaix, iniciava-se a Primeira Guerra Mundial, um conflito duríssimo, que resultou em nove milhões de mortos e um cenário de destruição generalizada por toda a Europa, com o Norte de França a ser das zonas mais fustigadas. Havia dúvidas se sequer existiria ainda uma estrada para Roubaix (ou até mesmo Roubaix!), depois de quatro anos de bombardeamentos e luta de trincheira.

Em 1919, ao efetuar o reconhecimento do percurso, o carro dos organizadores encontrou um cenário de total hecatombe e desolação. À medida que se aproximavam do Norte, o ar ficava pesado e nauseabundo, empestado com o fedor dos esgotos abertos e do gado em decomposição. Tudo era lama e mesmo as árvores estavam escurecidas e decrépitas. Não havia melhor palavra para descrever o cenário do que aquele que acabou por batizar esta corrida: “Inferno”!

Note-se que estamos perante uma das mais antigas provas do ciclismo internacional, um evento que apenas não se realizou no período das duas grandes guerras mundiais e, mais recentemente, durante a pandemia de Covid-19. Importa notar também que, na sua génese, Paris-Roubaix era uma competição onde os ciclistas tinham auxílio de bicicletas, tandems, ou mesmo motas ou carros, que rodavam à frente dos corredores, ao estilo das provas de pista. Este modelo foi abandonado a partir de 1910, o que ajudou a prova a distinguir-se das restantes, em particular do Bordéus-Paris.

Sean Kelly e Rudy Rogiers, no mítico Carrefour de l’Arbre (1984)

O desafio de correr sobre paralelepípedos é relativamente recente. Depois da Segunda Guerra Mundial, houve melhorias generalizadas nas estradas, o que mudou a essência de provas como o Paris-Roubaix e a Volta a Flandres. Até então, corria-se em empedrado porque simplesmente não havia outra alternativa. A falta de espaço e de piso em boas condições tornava as provas caóticas, que muitas vezes eram apenas grandes amálgamas de corredores cobertos de lama, tentando encontrar forma de pedalar ou até mesmo de se levantar! As novas estradas foram vistas como uma bênção por parte dos atletas. Além disso, com o início das transmissões televisivas, as autarquias locais apostavam cada vez mais em pavimentar as zonas empedradas, com receio de serem vistas como regiões retrógradas.

Os organizadores temiam que a prova perdesse a sua identidade, tornando-se cada vez mais uma corrida plana com um provável final ao sprint. Note-se que, até à Segunda Grande Guerra, a prova era disputada em estradas nacionais, invariavelmente em empedrado. A partir de 1967, o pavé começou a desaparecer rapidamente, e o traçado começou a ser deslocado para Este, em busca dos paralelepípedos que por lá resistiam, mas o destino parecia inevitável. Com as estradas principais cada vez mais pavimentadas, surgiu então a ideia de procurar estradas antigas e caminhos secundários que não constavam nos mapas.

Os organizadores guardam uma versão banhada a ouro do troféu

Criou-se então a Associação dos Amigos de Paris-Roubaix, um grupo de entusiastas que se comprometeu com a sua missão de busca, e por vezes manutenção, de muitos troços de empedrado entre Paris e Roubaix. Era um processo de luta constante com os munícipes locais, que durou até bem recentemente. Não havia vila ou aldeia que quisesse receber a prova sem antes pavimentar a estrada.

Hoje em dia, a situação é diferente. Paris-Roubaix goza de um estatuto lendário e a essência da corrida em pavé é uma autêntica instituição do Norte de França. Agora, são as autarquias que contactam os Amigos de Paris-Roubaix a informá-los da descoberta de novos caminhos. Refira-se que a popularidade da prova trouxe novos problemas, nomeadamente a elevada afluência de público, com muitos fanáticos a levarem consigo paralelepípedos como recordação, depauperando o património deste Monumento.

O impacto da corrida na região é inequívoco. Quando o Presidente da Associação dos Amigos de Paris-Roubaix, Alain Bernard, descobriu o famoso Carrefour de l’Arbre, numa das suas incursões pelas zonas mais remotas da região, encontrou também um recôndito Cafe de l’Arbre, um pequeno estabelecimento que apenas abria um dia por ano, de modo a manter a sua licença. Hoje em dia, esse pequeno café consiste num movimentado restaurante, aberto todo o ano.

Os Amigos de Roubaix gastam qualquer coisa como 10 a 15 mil euros por ano a restaurar e reconstruir setores de empedrado. Fornecem areia e materiais e os arranjos são feitos por estudantes de horticultura das escolas da região.

Um dia na vida dos Amigos do Paris-Roubaix, também conhecidos como “Les Forçats du Pavé” ou “Os Condenados do Empedrado”

O percurso

O traçado da prova foi sendo alterado com o passar dos anos. Em 1966 foi abandonado o modelo Paris-Roubaix, com a partida a passar para Chantilly, 50 km a Norte da capital, e depois para Compiègne em 1977, 30 km mais a Norte, naquele que é o percurso utilizado atualmente.

Nos dias de hoje, a prova compreende uma extensão de cerca de 260 km, de Compiègne até Roubaix, com os primeiros setores de pavé a surgirem ao fim de 100 km de corrida. Nos restantes 150 km, o pelotão enfrenta cerca de 50 km de terreno empedrado, antes do final na superfície aprazível do velódromo André-Pétrieux. Todos os anos, a organização ajusta a rota em função das estradas antigas que são asfaltadas e de novos troços de pavé que vão sendo descobertos.

A chuva ameaça regressar para a edição de 2021

A organização elenca os setores de empedrado mediante a extensão, irregularidade, condição de preservação, e colocação no percurso. Habitualmente, os principais setores são: Troisvilles/Inchy, Wallers Haveluy, Trouée d’Arenberg (um dos símbolos da corrida), Mons-en-Pévèle, Carrefour de l’Arbre (o último setor de nível de dificuldade máximo), e ainda o Espace Charles Crupelandt ou Caminho dos Gigantes, um troço mais suave que antecede a entrada no velódromo e que está decorado com imagens em honra de todos os vencedores da corrida.

São muitos os elementos distintivos desta verdadeira instituição do ciclismo. Além do icónico paralelo, atribuído ao grande vencedor desde 1977, também os chuveiros dos balneários do velódromo são únicos, pelo formato das paredes baixas e das placas com os nomes de todos os vencedores, incluindo monstros sagrados como Peter Van Petegem, Eddy Merckx, Roger De Vlaeminck, Rik Van Looy, Felice Gimondi, Fausto Coppi, Francesco Moser, Bernard Hinault, Sean Kelly, Johan Museeuw, Tom Boonen, Fabian Cancellara, Peter Sagan, ou Philippe Gilbert.

O pelotão a atravessar a Floresta de Aremberg (2014)
O cenário inconfundível de um Paris-Roubaix
Philippe Gilbert, campeão em título do Paris-Roubaix, disputado pela última vez em 14 de abril de 2019

A dureza do piso em empedrado constitui um tremendo desafio para os atletas, mas também para os mecânicos das equipas, que têm de adaptar quadros, rodas, travões, e freios para uma performance eficaz em cima dos paralelos. Além disso, esta é uma prova onde se torna difícil para os carros das equipas prestarem apoio de perto aos ciclistas, pelo que é habitual ver elementos das equipas espalhados pelas estradas com rodas suplentes e outro equipamento para uma assistência mais eficaz.

Os muitos quilómetros em empedrado significam muitos minutos com os braços e o tronco dos corredores sujeitos a uma fortíssima trepidação, com muitos ciclistas a tentarem fazer face a essa dificuldade usando suspensões e alterações como quadros mais alongados, ou ainda reforçando o guiador com partes almofadadas, entre outras soluções, com maior ou menor sucesso.

“Another one bites the dust”
“It’s a long hard road out of hell”

Os grandes vencedores

Depois da vitória do germânico Fischer em 1896, seguiram-se muitos anos de domínio gaulês, com 18 vitórias em 21 anos para os homens da casa. Vieram depois os intratáveis belgas, que a partir de 1920 dominaram a competição em larga escala, acumulando diversas vitórias nos 50 anos seguintes. Mesmo com a globalização do desporto que começou nos anos 80 e 90, continuando até à atualidade, os belgas mantiveram a sua veia vencedora nos tempos mais recentes, com 10 vitórias desde o virar do século.

No quadro de honra, a Bélgica lidera com 57 triunfos, contra 28 dos franceses e 13 dos italianos, seguindo-se os Países Baixos com 6 e a Suíça com 4.

Individualmente, são dois os ocupantes do trono de Roubaix: Roger De Vlaeminck, com quatro vitórias (1972, 1974, 1975, e 1977) e também o “Tornado”, Tom Boonen, também ele tetracampeão (2005, 2008, 2009, e 2012). Estes dois Adamastores do ciclismo fazem parte do restrito lote de (10) homens que conseguiram vencer Roubaix e Flandres no mesmo ano.

Em 2012, Tom Boonen igualou um dos grandes recordes do ciclismo, pertença de Roger De Vlaeminck
Em 2016, Mathew Hayman protagonizou uma das grandes surpresas da história da prova, roubando o quinto paralelo a Boonen

Depois do cancelamento da prova em 2020, a pandemia de Covid-19 acabou por afetar também a edição de 2021, com a corrida a ser adiada da Primavera para o Outono. Perante a ameaça de chuva para o dia da corrida, podemos estar perante um regresso bombástico da Rainha das Clássicas!

A startlist para 2021 inclui um verdadeiro alinhamento de luxo, com antigos vencedores como Peter Sagan, Greg Van Avermaet, ou Philippe Gilbert, e ainda um extenso lote de candidatos, encabeçados pelas bestas rivais, Wout Van Aert e Mathieu Van Der Poel!

Note-se que, para 2021, além do aguardado regresso da prova masculina, teremos também a estreia da competição feminina!

Uma nota final para a presença de um português na edição deste ano, Rui Oliveira, que completa assim mais uma etapa na sua extraordinária evolução no ciclismo internacional. Será o luso da UAE-Team Emirates capaz de melhorar o 27º posto de Acácio da Silva em 1983, a melhor classificação de sempre de um ciclista nacional?

Quem irá suceder a Philippe Gilbert?

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