Milão Sanremo – La Classicissima

A história do ciclismo confunde-se, em boa medida, com a história contemporânea do último século, com a vida quotidiana das populações, e com a própria evolução do homem, enquanto ser que cresce e evolui em sociedade e que, pelo caminho, percebe as suas capacidades e os seus limites.

As origens e a evolução de muitas provas velocipédicas estão ligadas indelevelmente à história da humanidade e a acontecimentos que marcam a cultura e o folclore dos povos. Desde guerras mundiais a convulsões políticas de vária espécie, os fatores que mudaram e moldaram a história e a própria sociedade refletem-se no ciclismo, e o inverso também se verifica. Veja-se como a grande rivalidade entre Fausto Coppi e Gino Bartali marcava profundamente a sociedade italiana nos anos 40, não só a um nível desportivo, mas principalmente ideológico.

A incepção de grandes eventos como a Volta a França está ligada a iniciativas de grande monta por parte de grandes órgãos de comunicação social, cientes que a modalidade tinha um impacto fortíssimo na sociedade e nas multidões que movia.

De facto, diversas provas têm um misticismo muito próprio e um impacto cultural inegável ao longo dos anos, e o seu nome está gravado a letras de ouro na história do ciclismo. No caso das corridas de um dia, as famosas “clássicas”, uma das mais emblemáticas é “La Classicissima”, a Clássica da Primavera, o primeiro dos 5 monumentos do ciclismo, a Milão – Sanremo. Disputada desde 1907, a corrida italiana representa uma verdadeira instituição em termos de importância desportiva, mas também histórica e sociológica.

Amanhã, disputa-se a 112ª edição da prova que representa a corrida de um dia mais longa no ciclismo de estrada moderno, preservando essa faceta das ancestrais provas velocipédicas. Em 2021, a quilometragem desta clássica será de 299km, corridos, como é hábito, entre as cidades de Milão e de Sanremo.

Os pergaminhos centenários desta mítica prova conferem-lhe uma aura e uma identidade muito próprias. A 1ª edição oficial da Milão – Sanremo ocorreu a 14 de abril de 1907, nascendo a partir duma ideia da Unione Sportiva Sanremese, que foi propagada por Tullo Morgagni, o impulsionador de outro monumento, a Volta à Lombardia, depois deste conseguir o apoio da Gazetta dello Sport para a organização da corrida. A prova foi disputada por 33 ciclistas, sendo que apenas 14 conseguiram completar o desafio, que foi vencido pelo francês Lucien Petit-Breton.

Em 1910, La Classicissima começou a ganhar fama e um lugar muito especial no coração dos adeptos de ciclismo. As condições meteorológicas muito adversas verificadas nessa edição obrigaram os ciclistas a abrigarem-se como puderam ao longo do percurso. Apenas 4 dos 63 participantes terminaram a prova, com o vencedor, o também francês Eugène Christophe, a completar a dura jornada com um tempo de 12 horas e 24 minutos, na edição mais lenta de sempre. O 2º classificado terminou a 1 hora e 17 minutos do vencedor!

Milão – Sanremo 1914

A Milão – Sanremo representa uma pedra basilar da história do ciclismo, estando ligada, por exemplo, às grandes rivalidades de Learco Guerra com Alfredo Binda e de Fausto Coppi com Gino Bartali, que tanto impacto tiveram na modalidade e na própria sociedade italiana.

O percurso da lendária prova italiana foi sofrendo alterações ao longo dos tempos. Todos os anos, a organização explora diferentes estradas e colinas que existem ao longo do caminho entre Milão e Sanremo. No entanto, algumas partes do percurso tornaram-se regra.

Desde 1949, a corrida termina na icónica Via Roma, uma movimentada artéria da cidade de Sanremo. Em 1960, a organização decidiu alterar significativamente o figurino da corrida, incluindo a subida do Poggio pouco antes da chegada a Sanremo, numa tentativa de favorecer os ciclistas italianos face aos sprinters belgas e espanhóis.

Refira-se que o atleta com maior sucesso nesta corrida é, nem mais nem menos, que o maior de todos os tempos, o belga Eddy Merckx, com 7 triunfos. O Canibal venceu em 1966, 1967, 1969, 1971, 1972, 1975 e 1976. Mais recentemente, destaquem-se os 4 triunfos de Erik Zabel e os 3 de Óscar Freire.

Vitória de Eddy Merckx na Milão – Sanremo de 1966

O recorde de tempo da prova foi estabelecido em 1990, pelo italiano Gianni Bugno, com um registo de 6h25m06s, 80 anos depois das 12h24m de Eugène Christophe, numa média de 45.8 km/h.

Um dos fatores que tornam esta corrida tão particular é a dicotomia sprinters/puncheurs que domina a prova, com o Poggio a representar a grande pedra no sapato dos homens rápidos. São apenas 3.6 km a 3.6% de inclinação média, colocados 7km antes da meta, mas, com as maiores percentagens perto do topo e depois de quase 300km a pedalar, esta é uma subida decisiva, perfeita para lançar um ataque devastador rumo à vitória. Pode-se dizer que este é um dos percursos ideais do calendário internacional para proporcionar um grande espetáculo e incerteza até ao último metro de asfalto. Nos últimos anos, a balança tem pendido para o lado dos homens que atacam nas subidas, especialmente no Poggio, embora, em muitas ocasiões, o pelotão tenha ficado muito perto de eliminar as movimentações dos melhores trepadores.

No ano passado, com a corrida a ser disputada numa altura diferente do ano, em agosto, fruto das contingências associadas à pandemia de Covid-19, a prova foi vencida por Wout Van Aert, num espetacular sprint a dois contra Julian Alaphilippe, com o pelotão apenas a uns metros de distância de apanhar a dupla! O francês procurava bisar depois da vitória em 2019, algo que ninguém consegue desde Erik Zabel, em 2000 e 2001.

A última vez que um puro sprinter venceu a prova foi no ano de 2016, quando Arnaud Démare bateu Ben Swift, na chegada em pelotão compacto.

Vitória de Alessandro Petacchi na Milão – Sanremo de 2005

E em 2021? Será que os escaladores mais fortes irão fazer valer a sua lei no Poggio e na Cipressa, frustrando mais uma vez os homens mais pesados do pelotão? Ou será que, desta feita, os velocistas irão perder pouco terreno nas subidas, conseguindo encostar na frente? De qualquer forma, uma coisa está garantida, será mais uma grande edição de uma prova que não dececiona, ano após ano, fazendo jus aos grandes momentos e aos vultos gigantes da modalidade que celebrizaram a corrida entre Milão e Sanremo!

Vitória de Wout Van Aert na Milão – Sanremo de 2020

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