“El día menos pensado” – O documentário da Movistar

A Netflix estreou no passado dia 29 de março, um documentário dividido em seis episódios, onde os amantes da modalidade podem assistir ao backstage da temporada 2019 da equipa Movistar. Não é nenhuma obra-prima, mas também não deverá ter sido esse o objectivo. O divertimento é garantido e o entretenimento também. Mas é o drama, do antes, durante e depois de cada corrida, que faz a diferença neste documentário.

Que se engane quem ache que uma equipa de World Tour não tem os seus problemas, mas também que esqueça por completo a ideia que a harmonia é constante, porque as emoções de uma corrida podem desfazer-la por completo. Todavia é aqui que entra o ponto chave de todo o documentário.

É um figura quarentona dentro da equipa que acaba por ter o papel fundamental ao longo do ano. Falamos claro de Eusebio Unzue. Nascido em Navarra em 1955, com 65 anos de idade e 40 na estrutura Movistar, é hoje uma das pessoas e “mánagers” mais prestigiadas da história do desporto espanhol e do ciclismo internacional. E não é por acaso que leva com esse título, já que Unzue leva como director desportivo sete vitórias no Tour, quatro no Giro e quatro Vueltas, isto para não falar das outras centenas vitórias, claro.

“tener en sus manos a grandes líderes para las vueltas de tres semanas.

Esta é uma das grandes mensagens, que muito bem Marc Pons e José Larraza conseguiram transmitir: o papel de um director desportivo. Claro que Unzue não é tudo, mas a influência do big boss com a soma de excelentes conhecedores do ciclismo como são José Luis Arrieta, Pablo Lastras e Chente García Acosta é a chave para que o medo, a derrota e desilusão não tomem conta da equipa. Mas, há sempre um mas, nem tudo corre bem. E é assim que podemos dar inicio ao documentário.

Alejandro Valverde, com o seus 39 anos, acusa a pressão da camisola que enverga – talvez a maldição do arco-íris não seja assim tão irrealista. Valverde teve uma queda durante a preparação da Liege-Bastogne-Liege como foi público. No dia da prova, não sente a confiança habitual dele, mas sabe com certezas quem é o candidato principal à vitória e adversário maior. Por outro lado, o oposto, o excesso de confiança da equipa. Conclusão: o campeão do mundo, notavelmente vazio, acaba por encostar ainda faltavam 100kms para o fim.

E assim passamos para o Giro de Itália e os seus protagonistas. A história de infância e de vida pré-Movistar de Richard Carapaz é arrepiante enquanto acompanhamos o dia-a-dia de treinos de Mikel Landa que era à partida o verdadeiro e único líder de equipa.

Como é sabido o basco cedeu segundos importantíssimos para a luta pela geral logo no prólogo. No mesmo dia sobressaí o equatoriano. E aí damos inicio ao próximos 2 episódios e meio. Equipa unida, ninguém discute a liderança, mas a pouco e pouco os azares e segundos perdidos de Landa aumentam, de tal forma que, na chegada ao Monte Bianco, Carapaz teve a possibilidade de vencer a segunda etapa. E assim o fez, venceu, mas também conseguiu passar o portador da Maglia Rosa. A harmonia na equipa era notória e clara. Apoio ao equatoriano a partir desse dia, sem hesitações. A harmonia é tal, que Carapaz acaba por ajudar Landa, em forma de agradecimento pelo esforço e dedicação na protecção constante, na vigésima etapa. Landa acaba por não ser capaz de vencer, perdendo ao sprint para Pello Bilbao (companheiros agora na Bahrain-McLaren). O basco termina também a prova na quarta posição, fora do pódio por 8 segundos, depois do contrarrelógio final. Já em 2017 ficou fora do pódio do Tour por 1 segundo.

Chegamos ao episódio 4 e 5 (ainda que o 3 já tenha parte do Tour). A famosa história dos três líderes, equipa divida e sem rumo. A Movistar parte com Nairoman, Landa e ainda Valverde que mesmo não sendo líder puro, quer se queira ou não, tem a sua independência.

A prova rainha do ciclismo arrancou mal para a equipa espanhola, quando cederam tempo precioso logo no contrarrelógio colectivo. Ainda assim ao fim da primeira semana, Nairo estava dentro do Top 10, não muito longe dos principais adversário.

“Se eles não resolverem suas diferenças, temos um problema”

As criticas foram constantes, bem como, os ataques à equipa espanhola durante toda a prova. Desde a liderança, falta de espírito de equipa (fora da corrida). E a bomba caí quando na etapa do Tourmalet, a Movistar acelera e Nairo não aguenta. Nesse dia, Valverde e Landa entram para o Top 11 enquanto que Quitana perde mais de 3 minutos. Nairoman ainda vence a etapa 19, graças à sua entrada na fuga numerosa do dia, mas o melhor mesmo é assistir e perceber tudo o que realmente se passou, porque a história da prova já sabemos nós como decorreu.

A Movistar termina com os três corredores no Top10, mas fora do Top5 e Top3, ganhando “apenas” colectivamente.

Os pesadelos continuam, Richard Carapaz sofre uma queda numa prova que nem avisou a equipa que ia participar e acaba por ficar de fora da Vuelta. A equipa fica apenas com Valverde e Nairo pela luta pela Geral, o que por um lado até poderia ser positivo. E de facto começam bem, Quintana vence logo a 2ª etapa, com um excelente trabalho de equipa.

E a etapa 7 também foi perfeita, com o arco-íris a voltar a brilhar! Colocando Valverde e Quintana bem perto da liderança da prova.

Com a cereja no topo do bolo, a ser a ascensão de Quintana à liderança da prova ao fim da etapa 9 o que parecia um excelente presságio para o que vinha. Mas segunda semana conseguiu ser o inverso para a Movistar. Perdem a liderança e o colombiano começa a não conseguir acompanhar os ritmos dos eslovenos e até mesmo do seu companheiro Alejandro Valverde. Fim da segunda semana, Quintana já estava a quase 8 minutos da liderança, enquanto que Valverde ainda estava por perto, na 2ª posição.

Como seria de esperar, no documentário não podia faltar dois do momentos mais mediáticos. famosa decisão que muita tinta correu nos jornais – não esperar e acelerar quando Primoz Roglic (líder) e Miguel Angel Lopez caíram. E a discussão de Marc Soler com o carro de apoio. Mas tudo isso tem uma explicação e está bem explicita no documentário.

Quintana volta a subir para o Top3, mas na ultima etapa, perde para a revelação da Vuelta, Tadej Pogačar. Alejandro Valverde com os seus 39 anos, termina a sua época de arco-íris com o sexto pódio.

“O Grand Tour em casa, também marcou o fim de uma era para a equipa Movistar, com a sua quarta década como uma estrutura chegando ao fim e um novo começo para o azuis, também coberto em detalhes na série”

Dois dos principais líderes da equipa mudaram-se, Landa transferiu-se para Bahrain McLaren à procura da independência e apoio total, já Nairo viajou para a recém subida Arkea-Samsic. Para renovar, entrou Enric Mas, juntando-se a Marc Soler na lista de novos líderes.

Jacobo Diaz Jares é outra personagem que tem que ser salientada e que fica bem claro durante os vários episódios, especialmente com Nairo Quintana. Frio e inteligente. Responsável pela Comunicação, Relações Públicas e Marketing da equipa demonstra uma excelente capacidade de antever as jogadas dos jornalistas num dia menos bom dos seus corredores, dando-lhes dicas e sugestões.

“El día menos pensado” teve em mim a mesma influência que uma prova de ciclismo tem, não consegui parar de ver até saber como terminava.

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