Vincenzo Nibali, “Lo Squalo d’Oro”!

A edição de 2022 da Volta a Itália fica desde já marcada pelo anúncio da retirada de competição de um dos maiores nomes da história do ciclismo italiano e mundial: Vincenzo Nibali! O Tubarão do Estreito aproveitou a chegada da caravana do Giro à sua terra natal de Messina, para a etapa 5, na passada quarta-feira, para anunciar, entre lágrimas, que esta será a sua última temporada como ciclista profissional!

O lendário corredor siciliano abandona os grandes palcos ao fim de 13 épocas ao mais alto nível, onde acumulou um currículo assombroso, que o coloca entre a elite do pedal. Apenas um de sete ciclistas a terem vencido as três Grandes Voltas, ele ficará para sempre ligado à história do ciclismo, um homem que subiu como poucos e desceu como ninguém!

Vincenzo Nibali nasceu a 14 de Novembro de 1984, na cidade de Messina, na ilha italiana da Sicília. Aos dezasseis, mudou-se para a Toscana, de modo a perseguir o seu sonho de ser ciclista profissional. Pouco tempo depois, no ano de 2002, o jovem tubarão começou a dar cartas nas provas do escalão júnior, vencendo o título nacional de fundo e fechando em terceiro lugar na prova de contrarrelógio dos mundiais.

Em 2005, torna-se profissional com a Fassa Bortolo, assinando no ano seguinte com a Liquigas, para o que seriam seis temporadas nos quadros da formação transalpina.

Kanstantsin Siutsov, Alessandro Pettacchi, e Vincenzo Nibali, na apresentação da Fassa Bortolo, 21 de janeiro de 2005

No primeiro ano de Liquigas, em 2006, consegue as suas primeiras vitória de revelo, com triunfos na clássica GP Ouest France-Plouay e numa das etapas da Settimana Internazionale Coppi e Bartali. Em 2007, corre o seu primeiro Giro, onde termina no 19º posto, numa prova onde o seu líder, Danilo de Luca, vence a geral final.

O tubarão estava a crescer, acumulando algumas vitórias e top 10 em provas importantes, o que levou a Liquigas a dividir as tarefas de liderança entre Nibali e Roman Kreuziger, no Tour de France de 2009. Nessa prova de fogo, o italiano não desapontou, terminando em 6º na geral individual, enquanto o checo foi apenas 8º.

Na época de 2010, Lo Squalo dello Stretto entrou a todo o gás, vencendo a geral do Tour de San Luis. Depois, foi chamado de última hora para o alinhamento da Volta a Itália, substituindo Franco Pellizotti, prova onde acabou por estar em bom plano, andando de rosa, vencendo uma etapa, e finalizando no 3º lugar final, numa corrida ganha pelo seu companheiro de equipa, Ivan Basso. A época dourada do Tubarão de Messina continuaria depois com vitórias na Volta à Eslovénia, no Troféu Melinda, e em especial na Volta a Espanha, naquele que foi o primeiro triunfo em Grandes Voltas!

O primeiro grande momento de Nibali: vitória na Vuelta 2010, à frente de Ezequiel Mosquera e Peter Velits

Nas duas temporadas seguintes, Nibali acabou por não conseguir capitalizar o seu estatuto com mais vitórias de alto gabarito, apesar de ter dado luta a nomes como Alberto Contador e à super-Sky de Bradley Wiggins e Chris Froome.

Entre outros belos momentos de ciclismo protagonizados pelo italiano, destaque-se a etapa 10 do Tour de 2012, quando o Tubarão mostrou a sua barbatana, atacando o pelotão liderado pela Sky, numa zona em descida, operando em conjunto com o seu companheiro de equipa, o Hulk de Zilina, Peter Sagan! A acutilância do Predador dos Mares não surtiu os efeitos desejados nessa ocasião, mas ficava novamente vincada a irreverência e o panache do siciliano.

Vincenzo Nibali em ação na etapa 6 do Tirreno-Adriático de 2012

No final de 2012, terminou a ligação de Nibali à Liquigas, seguindo-se um período de quatro temporadas na formação cazaque da Astana.

O ano de 2013 trouxe o regresso do Tubarão aos triunfos em Grandes Voltas, desta feita na “sua” Volta a Itália, onde venceu três etapas e a geral final, suplantando nomes como Rigoberto Urán, Cadel Evans, ou Michele Scarponi. O italiano podia ter tido um ano verdadeiramente de sonho, ficando perto de vencer a Vuelta, mas acabaria por ser 2º, atrás de Chris Horner.

Nibali e o seu primeiro “Troféu Sem Fim”, símbolo da vitória na Volta a Itália

Depois, veio 2014, e uma aposta inequívoca na Volta a França. Poucos dias antes da Grande Boucle, Nibali triunfou nos nacionais de fundo, exibindo com orgulho a tricolor sobre o manto azul-celeste da Astana, na Grand Départ, que se deu na região do Yorkshire, no Reino Unido. O resto é história! O Tubarão venceu a etapa 2, na ligação entre York e Sheffield, mostrando ao que vinha e assumindo desde logo a camisola amarela!

O Tubarão vence a etapa 2 do Tour de France 2014, em Sheffield

Chegávamos pouco depois à etapa 5 desse Tour 2014, que ficaria gravada na memória de milhões de fãs de ciclismo espalhados por todo o mundo. Num dia com muito pavé e condições meteorológicas adversas, o Tubarão deu uma das mais memoráveis dentadas da sua história, escapando com o seu colega, Jakob Fuglsang, e colocando mais de dois minutos à maioria dos restantes favoritos, incluindo Alberto Contador! Christopher Froome caiu e desistiu nesse dia, abrindo cada vez mais o caminho para o siciliano completar a “Tripla Coroa”. No decurso da prova, Nibali viria a perder a amarela, mas apenas por um dia, na etapa 9, retomando a liderança no dia seguinte, e não a perdendo mais até Paris.

Nibali e Fuglsang na etapa 5 do Tour 2014

Com este retumbante sucesso, o Tubarão de Messina tornava-se o sexto homem da história a ganhar direito de acesso a um clube bem exclusivo, integrado por aqueles que conseguiram vencer as três Grandes Voltas. O nome de Vincenzo Nibali juntava-se aos de Eddy Merckx, Bernard Hinault, Jacques Anquetil, Felice Gimondi, e Alberto Contador. Entretanto, também Chris Froome conseguiu imiscuir-se neste grupo de elite.

Apesar de muitos argumentarem que a vitória de Nibali no Tour de 2014 terá sempre um asterisco, devido aos azares de Froome e Contador, importa lembrar que uma corrida de bicicletas implica muito mais do que apenas boa condição física. A destreza e a técnica são fundamentais, assim como a astúcia e a resiliência face ao imprevisto, sendo que, nesse aspeto, são poucos os que chegam ao nível do Predador do Estreito!

Nibali festeja a maior vitória da sua carreira, com os Campos Elísios como pano de fundo

No ano seguinte, o italiano concentrou todos os seus esforços na revalidação do título do Tour, e os astros até pareciam alinhados, com a renovação do título de campeão nacional na antecâmara da grande partida. No entanto, Nibali acabaria desta feita por não ir além do quarto posto, com o pódio a ser preenchido por Froome, Quintana, e Valverde.

Lo Squalo rumaria depois em direção a Espanha, para a Vuelta, em busca de alguma redenção. No entanto, acabaria por se ver envolvido numa queda na segunda etapa, que o obrigaria a trabalhar para recuperar o tempo perdido para o pelotão. Nessa tentativa de recolar na frente, o italiano segurou-se no carro da equipa, ganhando vantagem indevida sobre a concorrência, o que lhe valeria a desqualificação da prova e uma clara mancha na sua reputação.

O ano de 2015 parecia ser completamente para esquecer, mas faltava ainda uma das grandes apostas para essa temporada: o Giro di Lombardia. Na Clássica das Folhas Caídas, o Tubarão atacou na descida de Civiglio, a penúltima subida do dia, chegando isolado à meta e vencendo o seu primeiro Monumento, com Daniel Moreno e Thibaut Pinot a completarem o pódio dessa edição!

O Tubarão Monumental, Nibali triunfa no Giro di Lombardia 2015

Vincenzo continuou a apresentar boa forma no arranque de 2016, o que lhe valeu novo triunfo no Giro d’Italia, o seu quarto e último em Grandes Voltas. Este foi mais um momento marcante da carreira do siciliano! Numa prova que parecia ganha por Steven Kruijswijk, Nibali atacou na etapa 19, na descida do Colle Dell’Agnello, com o neerlandês a cair ao tentar seguir o tubarão na neve e no gelo alpino! Kruijswijk ficou maltratado e arredado da luta pela rosa, com Nibali depois a bater Estebán Chaves na última etapa de montanha e a garantir uma vitória de conto de fadas!

Uma, duas, três, quatro Grandes Voltas para o Tubarão

Em 2017, Nibali mudou-se para a Bahrain Merida, onde permaneceria durante três temporadas. Na primeira das quais, conseguiu fazer pódio no Giro e na Vuelta, com o ponto alto do ano a ser a sua segunda vitória na Volta à Lombardia! Com esse triunfo, Nibali entrava em mais um clube restrito, daqueles que conquistaram as três Grandes Voltas e pelo menos dois Monumentos, e onde apenas figuram outros três nomes: Merckx, Hinault, e Gimondi!

O ano de 2018 traria depois novo “highlight” da carreira do “Shark of Messina”, com o triunfo em mais um Monumento, desta vez na outra grande clássica italiana, a Milão-Sanremo. Naquele que foi mais um momento marcante da história recente do ciclismo, Nibali atacou à boa maneira da “Classicissima”, fugindo no Poggio e aguentando a carga dos sprinters, até levantar os braços na Via Roma!

Vitória épica de Nibali na Milano Sanremo 2018

O Giro de 2019 acabaria por ser a última Grande Volta em que Nibali esteve perto de poder triunfar, finalizando no 2º posto, atrás de Richard Carapaz, numa edição em que os holofotes estavam colocados à partida sobre Nibali e Roglic, com o equatoriano a aproveitar a marcação entre o Tubarão e o Besouro para “roubar” o Troféu Sem Fim. Na Volta a França desse ano, Nibali viria ainda a conquistar uma etapa, a última das 14 que conquistou em Grandes Voltas.

Depois, veio nova mudança de equipa, com a transferência para a Trek-Segafredo, para um contrato de dois anos. Em 2020, já numa fase descendente do seu fulgor desportivo, acaba por conseguir ainda fechar top 10 no Giro.

Em Outubro de 2021, Nibali alcança aquelas que são, por agora, as últimas vitórias da sua carreira, ao triunfar em casa, na última etapa e na geral da Volta à Sicília, como que fechando todo um ciclo.

O Tubarão do Café, Nibali na Trek-Segafredo em 2021

A temporada de 2022 trouxe o regresso de Nibali à Astana, para uma última “dança” no circuito mundial. A sua presença no alinhamento para o Giro tinha o objetivo claro de proporcionar um auxílio de luxo a Miguel Ángel López, mas com a desistência do colombiano na etapa 4, surge a questão: o que terá Nibali guardado para este último Giro?

Na etapa de ontem, na chegada ao Blockhaus, Vincenzo termina num estrondoso 8º lugar, a 34 segundos do vencedor, do alto dos seus 37 anos! Seguindo agora no 13º lugar da geral, a 3:04 da rosa, ficamos a aguardar pela possibilidade de vermos mais uma vez a barbatana de Messina emergir no horizonte e espalhar o terror entre o cardume! Com quatro Grandes Voltas, três Monumentos, e 54 vitórias na sua carreira, haverá espaço para uma última página no livro de ouro de Nibali?

O planeamento da época do italiano prevê ainda a presença na Vuelta e na Lombardia, naquele que será provavelmente o adeus oficial do Tubarão, mas não estará ainda afastada a hipótese de, antes disso, ser chamado para integrar o conjunto da Astana para o Tour.

O adeus de Nibali à competição deixa um enorme vazio no coração de milhões de adeptos. Na passada quarta-feira, na sua querida Messina, Nibali anunciou emocionado que está “na altura de terminar” e de pensar “na família e nos amigos”, acrescentando “que estava à espera desta etapa há algum tempo, há anos… pois foi aqui que comecei a correr e a treinar.”

Nas palavras de “Deus” Landa após o anúncio da retirada de Nibali, é o adeus de um “ídolo” e o “fim de uma era”!

Giro 2022, o último do Tubarão

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