Terá sido esta uma má edição da Volta ao Algarve?

A 49ª edição da Volta ao Algarve acabou no dia 19 de fevereiro, onde o colombiano Daniel Martinez da Ineos Grenadiers venceu, com algumas surpresas no pódio, naquela que prometia ser mais uma grande edição da melhor prova portuguesa, mas que deixou muito a desejar.

Na primeira etapa tivemos como vencedor o ciclista norueguês Alexander Kristoff da Uno-X Pro Cycling Team, com o colega de equipa Soren Waerenskjold a ser terceiro. Apesar da boa vitória da Uno-X, esta etapa ficou marcada pela queda a 12km da meta, a qual se deveu à má organização da etapa nos kms finais, onde não houve sinalização para as estradas perigosas por onde iam passando, nem do perigo do pequeno paredão presente no momento da queda. No final, a situação levou a muitas desistências, como as de Frederico Figueiredo da Glassdrive – Q8 – Anicolor, Marc Hirschi da UAE Team Emirates e Joel Suter da Tudor Pro Cycling Team. De sinalizar também que no final mal se via a linha da meta e que após a queda foi-nos proporcionado um espetáculo um bocado sem sal, com um sprint muito pesado e sem grandes rasgos.

Alexander Kristoff após vencer a 1ª Etapa da 49ª Edição da Volta ao Algarve (Foto: Volta ao Algarve)

Prometia-se muito espetáculo no Alto da Fóia, na 2ª etapa desta edição da Volta ao Algarve, que poderia apagar o que aconteceu de menos bom no dia anterior. Esperava-se uma luta entre os candidatos à geral e que nos poderia proporcionar grandes diferenças no final, mas foi uma desilusão completa. Magnus Cort Nielsen da EF Education-EasyPost foi o vencedor desta etapa, ao sprint, Ilan Van Wilder da Soudal Quick-Step foi segundo e o português Rui Costa da Intermaché – Circus – Wanty foi terceiro ( e que grande início de época está a fazer o português!). Aqui temos de salientar o pouco trabalho e esforço que as variadas equipas deste pelotão cheio de estrelas em querer puxar o pelotão. A Ineos Grenadiers poderia proporcionar-nos este espetáculo, devido ao grande leque de ciclistas de muita qualidade que tinham na equipa, mas colocaram um ritmo alto para que ninguém saísse e para que os contrarrelogistas não quebrassem. Assim, levaram cinco ciclistas para o final da etapa com diferenças mínimas para o vencedor, salientando o recordista da hora Filippo Ganna que poderia ter sido, e foi um grande perigo para os candidatos à geral.

Ilan Van Wilder e Magnus Cort Nielsen no final da 2ª Etapa da 49ª Edição da Volta ao Algarve (Foto: Volta ao Algarve)

Mas terá sido tudo mau?

Apesar de as duas primeiras etapas da 49ª edição da Volta ao Algarve terem sido algo sem sal, sem espetáculo algum, as seguintes duas foram melhores, mas não apagaram aquilo que foram as anteriores.

Magnus Cort Nielsen, o vencedor no Alto da Fóia surpreendeu os melhores sprinters do pelotão ao vencer a 3ª etapa, mas também surpreendeu com um ataque a 25 quilómetros do final, onde inicialmente foi só para buscar uns segundos para a geral, tornou-se num ataque ao pelotão não ter reagido a esta “fuga” inicial, onde foi acompanhado e bem, pelo português Rui Costa. De se notar mais uma vez que quase até ao final o pelotão ficou a dormir, algo que se mostrou muito bem assente nesta edição da Volta ao Algarve, onde Cort Nielsen viu isso e aproveitou com um ataque final, seguido mais uma vez pelo surpreendente Filippo Ganna.

Magnus Cort Nielsen após vencer a 3ª Etapa da 49ª Edição da Volta ao Algarve (Foto: Volta ao Algarve)

O Alto do Malhão, após várias surpresas e desilusões, veio como uma lufada de ar fresco, mas mesmo assim poderia ter sido algo mais. De salientar nesta etapa o grande trabalho da UAE Team Emirates para o líder da equipa, João Almeida, e onde foi bonito ver Matteo Trentin a passar a sua experiência ao português e a dar-lhe algumas dicas. Almeida procurou fazer a diferença com um ataque no final onde quase venceu , sendo batido pelo campeão olímpico de BTT, Thomas Pidcock, que revelou mais explosão na fase final que o português. Talvez tenha faltado um pontinho a mais no final a João, talvez fruto do seu mau posicionamento na entrada para a subida final, algo que é apontado por muita gente como um dos seus pontos fracos e que foi assinalado pelo comentador e ex-ciclista Marco Chagas, 4 vezes vencedor da Volta a Portugal, durante a transmissão da Volta ao Algarve pela RTP. Mais uma vez nesta etapa a Ineos Grenadiers pouco ou nada fez, seguindo apenas com os seus ciclistas até ao final de modo a perder pouco tempo. Acabou por conseguir a vitória de etapa, e poderia ter levado 4 ciclistas para vencer no contrarrelógio a Volta ao Algarve, caso não fosse a avaria de Thymen Arensman pouco após a primeira passagem pelo alto do Malhão. Apesar disto, a equipa merece elogios pela sua “ratice”, uma vez que aproveitaram bem a situação de maior parte do pelotão estar a “dormir” para quase levarem 4 ciclistas a poder a vencer a Volta ao Algarve, principalmente Filippo Ganna, que era um dos grandes favoritos a vencer a quinta etapa e surpreendentemente tornou-se um dos grandes favoritos a levar a amarela para casa.

Pidcock após bater o ciclista português João Almeida no Alto do Malhão (Foto: Volta ao Algarve)

O Final

Na etapa final da Volta ao Algarve 2023, venceu o suíço da Groupama – FDJ, Stefan Küng, que acabou por fechar no quinto lugar da geral, à frente dos portugueses João Almeida e Rui Costa, que ficaram em sexto e décimo, respetivamente. O português João Almeida, que partia como um dos favoritos a levar a vitória para casa, acabou por fazer um contrarrelógio fora do seu normal, notando-se alguns problemas na bicicleta e com imagens, inclusive, do próprio a queixar-se de alguma coisa para o carro enquanto estava a correr.

Stefan Küng no contrarrelógio da 49ª Volta ao Algarve, onde acabou por vencer (Foto: Volta ao Algarve)

No final do dia, foi o colombiano Daniel Martinez a levar a vitória para casa por 2s em relação ao colega de equipa Filippo Ganna, que muito surpreendentemente ficou no pódio, talvez pela falta de vontade das restantes equipas em quererem descartá-lo, mas também com o seu mérito claro, em ter jogado as suas cartas com a situação de corrida que se apresentou. Os amantes de ciclismo queriam ver mais espetáculo, com ataques, explosão e bons sprints, mesmo que não vencesse um ciclista da casa, como João Almeida ou Rui Costa. Ao contrário de outras edições e com as equipas um bocado desinteressadas nas primeiras 3 etapas, esta tornou-se uma das edições com menos interesse de sempre, quando tinha tudo para ser melhor, e até trazia, finalmente, transmissão em canal aberto, pela RTP, fazendo chegar mais ciclismo aos portugueses.

Volta Algarve 2023 – 49th Edition – 2nd stage Sagres – Alto da Foia 186,3 km – 16/02/2023 – Sergio Roman Martin (ESP – Caja Rural – Seguros RGA) – Crash – photo Nico Vereecken/PN/SprintCyclingAgency©2023

Espera-se que nas próximas edições tanto as melhores equipas do pelotão, como a organização, nos proporcionem o espetáculo que toda a gente quer ver, até porque sendo a edição 50, toda a gente quererá e merecerá uma edição lendária da Algarvia. No final fica também o elogio à boa transmissão por parte da RTP, trazendo mais uma prova de relevo, tanto em Portugal como a nível internacional. Fica aqui o desejo de mais transmissões de provas fora estas três em sinal aberto, começando talvez pelas corridas World Tour e pelas restantes grandes voltas,  o Giro d’Italia e a La Vuelta a España, com Marco Chagas e João Pedro Mendonça a comentar, e a procurar ensinar um pouco mais sobre ciclismo e a sua cultura a todos os espectadores.

Foto de Capa: Volta ao Algarve

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