Inquérito da The Cyclists’ Alliance aponta que 25% das atletas correm a custo 0!

Durante os meses de maio e junho, as corredoras dos escalões de sub-23 e elite, em equipas continentais e de World Tour, foram convidadas a preencher ao inquérito anual da The Cyclists’ Alliance Rider. Desde 2017 que esta aliança tem promovido este inquérito e ao longo do tempo tornou-se um sindicato independente. Um principal foco é tornar o ambiente de trabalho das mulheres atletas ser seguro, estável e com objetivos coerentes.

Segundo o grupo de trabalho da Alliance este inquérito é a indicação clara do progresso e desenvolvimento do ciclismo feminino, mas o impacto da covid-19 é clara e pode ser destruidora. Vamos por partes.

O que melhorou?

  • Pelo segundo ano, mais ciclistas procuram aconselhamento jurídico antes de haver qualquer assinatura num contrato;
  • O número de despesas pagas pela atleta (que deveriam ser pagas pela equipa) reduziu – apesar de ainda haver cerca de 43% atletas que pagam para correr. (despesas incluídas são: equipamento, serviço mecânico, despesas médicas e despesas de viagem);
  • O salário bruto volta a subir, passando a haver (em média) um salário fixo anual mínimo de 15000€ (contrato anual) e 24600€ (recibos verdes). Cerca de 25% garantem receber mais de 30000€ anualmente.

E o que piorou?

  • O número de atletas que recebe 0€! subiu cerca de 8% para uns 25% de atletas!
  • Não havendo uma imposição para um salário mínimo dentro das equipas, 30% das atletas admitem que recebem menos que o salário médio anual de 15000€.

Quais as novas preocupações?

  • COVID-19
    • 29% das corredores admitem que tiveram uma redução salarial ou que deixaram de receber;
    • 76% têm a preocupação de não ter uma renovação de contrato para 2021 ou uma renovação para contratos a recibos verdes.
  • VISA (vistos)
    • As corredoras não europeias sentem uma pressão contínua (e exagerada) relacionada com o pedido de vistos constantes para poderem competir na Europa (e outras partes do Mundo).
  • Segurança
    • Existem poucos protocolos que garantam a segurança de uma atleta ao longo do ano.

Análise aos números.

Os salários têm de facto crescido, mas também têm diminuído, havendo uma clara discrepância entre as “bem” pagas e as não pagas do pelotão. Desde 2018 temos vindo a uma diminuição constante dos salários mais baixos, enquanto que os mais altos são mais praticados entre quem já mais recebia.

Valores do salários entre 2018 e 2020

A discrepância pode-se explicar com o facto de no WWT haver algumas obrigatoriedades salariais, ou pelo menos, patrocínios fixos que torna sustentável haver salários mais competitivos e fixos.

Ainda assim, 15mil€ por ano (usando a média anual) é um valor muito baixo, tendo em conta que 43% das corredores acabam por ter que pagar para correr, significando, que para além de impostos sobre esse valor, ainda retiram uma fatia grande para despesas. Não é por acaso que, cerca de 33% das corredoras admitem que têm que recorrer a um segundo emprego para se poderem sustentar ou sobreviver.

O que nos leva a outra importante questão e que foi inclusive incluída no inquérito. De que forma as atletas mais jovens preparam o seu futuro.

Ciclistas e a Educação

Pouco menos de metade das atletas está a estudar enquanto correm, com o grande foco de poder ter oportunidades fora da modalidades quando terminarem a carreira (42%).

As razões que levam as ciclistas a deixar a modalidade é algo que deve ser estudado e corrigido urgentemente. 72% afirmam deixar de correr por razões financeiras e mais de metade por querer formar uma família (ter filhos). A ideologia de que a mulher tem que ter filho e o homem é quem trabalha está de alguma forma enraizada também ciclismo. Uma gravidez poderá pôr em causa mais de 1 época e as equipas não estão prontas para fazer esse apoio.

Razão(ões) que melhor descreve a razão pela qual os cavaleiros podem considerar abandonar o desporto:

► 72% – Financial reasons – razões familiares
► 56% – To start a family – dar inicio a uma familia
► 40% – To pursue career opportunities – oportunides profisionais
► 32% – To spend more time with partner, family, friends – gastar mais tempo com parceiros, amigos e familia
► 22% – To pursue study options – estudar
► 16% – Cycling is too stressful – ciclismo é strassante

Em resposta às duas maiores razões de abandono, caso houvesse um aumento de salários e apoios financeiros, 87% admitem não pensar em deixar ou continuar a correr, e quase metade estariam satisfeitas para continuar a pertencer à modalidade caso houvesse uma proteção sobre a gravidez.

Factores que ajudariam os ciclistas a prolongar a sua carreira de ciclistas:

► 87% – More money from cycling – mais dinheiro
► 46% – Parental policy (being able to start a family) – proteção parental
► 44% – Access to career development programs – acesso a carreiras de desenvolvimento
► 26% – Access to educational funding – ajudas e acesso a programas de educação
► 22% – Access to medical services – acesso a serviços médicos

Conclusão

Muitas das queixas que assistimos reflectem o resultado da pandemia, mas a maioria, são advém dos anos anteriores, e a gravidade bate as escalas possíveis em pleno século XXI.

O ciclismo feminino merece direitos, e depende de todos nós para que tal aconteça!

Em Portugal estamos a passar por uma situação dramática como já alertamos durante todo o ano.

Nota: podem consultar os resultados do inquérito aqui.

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